sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Pichadores usam códigos para assaltar

Recurso identifica rotina dos moradores e facilita a ação dos criminosos

Kelly De Conti Rodrigues

Ver pichações em muros é algo que não causa muito espanto. Até por esse motivo, a presidenta Dilma Russeff aprovou uma lei que permite a venda de spray apenas com a identificação do comprador. Contudo, essas pichações podem representar perigo para a população. Isso acontece quando tais marcas funcionam como códigos para assaltantes. Alguns deles foram decifrados por meio de estudos das Secretarias de Segurança Pública.
Algumas marcas indicam, por exemplo, o melhor período para assaltar. Uma seta para cima significa que de manhã é mais fácil, enquanto na direção oposta quer dizer que o local está mais vulnerável à noite. Já uma seta para um dos lados mostra que à tarde é o melhor momento. Indicar o mês em que a residência fica vazia através de números é outro recurso dos assaltantes. Por exemplo, se uma casa fica fazia em agosto, o numeral oito seria pichado. Outros dois símbolos comuns são o asterisco (*) e o cifrão ($). O primeiro indica que pode haver arma na residência ou que o assaltante deve entrar armado. Já o cifrão mostra a eles que há dinheiro na casa.
Segundo o diretor do Conselho Comunitário de Segurança (Conseg) de Agudos (13 Km de Bauru), José Christino, há vários tipos de marcações, e algumas atitudes devem ser tomadas quando houver uma pichação na residência. Entre elas, Christino destacou que, apesar de algumas pessoas acharem que não cabe denúncia, é importante comunicar a ocorrência à Polícia Militar. Além dessa medida, o diretor afirmou que os moradores não devem deixar os sinais por muito tempo na parede. “É preciso apagar imediatamente. A pessoa deve pintar para tirar esses sinais”, aconselhou.
Lei contra pichações
A fim de ajudar a diminuir as pichações, a presidenta Dilma Rousseff sancionou, em maio deste ano, a Lei 12.408, que proíbe a comercialização de tintas em embalagens aerossol a menores de 18 anos. O texto ainda prevê que o comerciante identifique o comprador na nota fiscal.
Para José Christino, tal medida não será muito eficaz para reduzir o número de pichações. “Um maior pode comprar o spray e repassar para um menor. Na verdade, é tudo uma questão de educação. Falta conscientizar a população”, opina.
O que pode fazer a diferença no combate a esse delito, segundo Christino, é “a fiscalização e a denúncia. A polícia não adivinha onde está o crime”, orienta.

Polícia espera ajuda para diminuir pichações
Mesmo sabendo se tratar de um crime, muitas pessoas costumam não denunciar quando têm suas propriedades pichadas. Isso atrapalha o trabalho da polícia, a qual busca os pontos onde elas mais ocorrem e aposta na conscientização para diminuir esse ato de vandalismo. 
“A polícia age, nos casos de crimes graves, pelo acionamento, pelo trabalho de emergência. Nos menos graves, nós trabalhamos pela quantidade. Ou seja, onde há uma incidência, uma cultura negativa, a polícia fica sabendo e começa a atuar”, explicou o major do 4º Batalhão de Polícia Militar do Interior Flavio Jun Kitazume.
Ele ainda afirmou que as denúncias ocorrem geralmente quando o pichador é pego em flagrante. “Por isso a policia ouve os trabalhadores noturnos, como taxistas e vigilantes, que conhecem a vida daquela região. Então, eles podem nos ajudar a identificar. E são eles que, muitas vezes, acionam a polícia. Os nossos flagrantes são em cima dessas denuncias”, contou.
Por não se tratar de um caso emergencial, Kitazume recomenda que a polícia comunitária seja acionada. “Esse trabalho é muito mais ligado à base. É um trabalho de polícia comunitária. O 190 (telefone usado para contato com a PM em caso emergência) é para os crimes que podem causar risco à vida e à integridade física das pessoas. E a pichação é algo mais de cunho social, comunitário”.
Além de uma forma de facilitar assaltos (vide matéria acima), as pichações são maneiras de alguns grupos marcarem território. Segundo o major Kitazume, “quanto maior o grau de dificuldade para pichar, o marco para eles é maior. Então, isso só serve de estimulo”, explicou. Outro problema relaciona-se ao fato de que “o crescimento desordenado das cidades, a falta de emprego e oportunidade geram delinqüência juvenil, que leva à marginalidade e deixa o jovem vulnerável ao assédio dos marginais. Começa com pequenos vícios (bebidas, cigarros, pichações) e depois passa para furtos”, contou o major.
A punição prevista em lei para os pichadores é de seis meses a um ano de prisão e multa. Contudo, Kitazume afirma que prender esses criminosos não é a medida mais adequada para o caso. “Hoje, vemos que as penas restritivas de liberdade vão na contramão do que pensa a justiça”. Um possível caminho, segundo ele, relaciona-se à educação e conscientização dos cidadãos. “Nós vimos que atuar repressivamente é quase como enxugar gelo. Esse é um trabalho de convencimento, de descobrir o que leva as pessoas a fazerem, porque isso é uma maneira de se manifestar. Então, é preciso atacar a causa principal”, destacou o major.


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